sábado, 5 de maio de 2012

Um pouco sobre a vida e a obra do brasileiríssimo escritor Jorge Amado.


JORGE AMADO

    Nascido a 10 de Agosto de 1912, em Itabuna, no sul do Estado da Bahia, Jorge Amado, nasceu, como dizia sua mãe, «com a estrela»: um homem afortunado. Seu pai queria que o filho fosse doutor, e ser doutor naqueles tempos era formar-se em Medicina, Engenharia ou Direito.
Jorge Amado, que desde os catorze anos participava em movimentos culturais e políticos, optou por Direito. Fez a vontade ao pai, mas não foi buscar o diploma e nunca exerceu advocacia. Em compensação, no ano da sua licenciatura, em 1935, já era um escritor conhecido, autor de quatro livros que fizeram sucesso entre o público e a critica: O País do Carnaval com que se estreou aos 18 anos, Cacau, Suor e Jubiabá. Em 1937, devido ao seu intenso envolvimento Político, viu toda a primeira edição do seu livro Capitães da Areia ser queimada em praça pública, o que o levou, em 1941, ao exílio na Argentina e no Uruguai.    
     Em 1945, Jorge Amado uniu-se a Zélia Gattai, companheira de toda a sua vida. Deputado federal pelo Estado de São Paulo fez parte da Assembléia Constituinte votando leis importantes, como a que ainda hoje garante a liberdade religiosa no país, Em 1947, o Partido Comunista foi ilegalizado e Jorge Amado perdeu os seus direitos políticos. Voltou para o exílio, desta vez em França e na Checoslováquia, continuando a escrever e a trabalhar pela paz, agora em companhia de Pablo Neruda, seu velho amigo, de Pablo Picasso, de Louis Aragon, de Nicolas Guillen, só regressando ao Brasil em 1952. Em 1961 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, vindo também a pertencer à Academia de Letras da Bahia, à Academia de Ciências e Letras da República Democrática Alemã e à Academia de Ciências de Lisboa, sendo membro correspondente destas duas últimas. O seu livro Gabriela, Cravo e Canela, publicado em 1958, teve grande sucesso e os seus direitos cinematográficos foram vendidos para a Metro, o que possibilitou ao escritor a compra de uma casa em Salvador realizando assim o sonho de voltar a viver na sua terra. Em 1963, Jorge Amado muda-se com a sua família para a Rua Alagoinhas, onde tem escrito os seus livros.
     Jorge Amado foi agraciado com inúmeros prêmios internacionais, entre os quais: Prêmio da Latinidade (França, 1971), Prêmio do Instituto Italo-Americano (Itália, 1976), Prêmio Pablo Neruda (Rússia, 1989), Prêmio Etrúria de Literatura (Itália, 1989), Prêmio Mediterrâneo (Itália, 1989), e o Prêmio Luís de Camões (Brasil-portugal, 1995). Recebeu ainda os seguintes títulos, entre outros: Comendador da ordem de Andrés Bello (Venezuela, 1977), Comendador da Ordem das Artes e das Letras (França, 1979); Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada (Portugal, 1980), Grande Oficial da Ordem do Mérito da Bahia (Brasil, 1981); Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique (Portugal, 1986), Grande oficial da Ordem do Rio Branco (Brasil, 1987), Ordem Carlos Manuel Céspedes (Cuba, 1988), Comendador da Ordem de Maio (Argentina, 1922), Ordem Bernardo O'Higgins (Chile, 1993). É ainda Doutor Honoris Causa pela Universidade Lumière, Lyon II, França, Universidade de Bari, Itália, Universidade de Israel, Universidade Pádua, Itália e Sorbonne, França. Jorge Amado faleceu na Bahia a 6 de Agosto de 2001.






Jorge Amado, Gabriela, cravo e canela, - ed. 79ª - Rio de Janeiro, Record -1998.)


Jorge Amado, "Gabriela, Cravo e Canela" - Segunda Parte: Gabriela com flor.


GABRIELA COM FLOR


     As flores desabrochavam nas praças de Ilhéus, canteiros de rosas, crisântemos, dálias, margaridas, malmequeres. As pétalas das onze-horas abriam-se por entre a relva, pontuais como o relógio da intendência, salpicando de vermelho o verde da grama. Para as bandas do Malhado, em meio ao mato, nos bosques úmidos do Unhão e da Conquista, explodiam fantásticas orquídeas. Mas o perfume a elevar-se na cidade, a dominá-la, não vinha dos jardins, dos bosques, das tratadas flores, das orquídeas selvagens. Chegava dos armazéns de ensacamento, do cais e das casas exportadoras, era o perfume das amêndoas de cacau seco, tão forte que entontecia os forasteiros, tão habitual que ninguém mais o sentia. Espalhando-se sobre a cidade, o rio e o mar.
     Nas roças, os frutos de cacau punham-se de vez, todas as gamas do amarelo na paisagem, um ar doirado. O tempo da colheita aproximava-se, de safra tão grande jamais se tivera notícia.
     Gabriela arrumava enorme tabuleiro de doces. Outro, ainda maior, de acarajés, abarás, bolinhos de bacalhau, frigideiras. O moleque Tuísca, pitando uma ponta de cigarro, esperava a contar-lhe conversas do bar, miúdos acontecimentos, aqueles a afetá-lo mais particularmente: os dez pares de sapatos de Mundinho Falcão, as partidas de futebol na praia, um roubo acontecido em loja de fazendas, o anúncio da próxima chegada do Grande Circo Balcânico, com elefante e girafa, camelo, leões e tigres. Gabriela ria, ouvindo, ficou atenta às notícias do circo:
     - Vem mesmo?
     - Já tem anúncio nos postes.
     - Uma vez teve um circo por lá. Fui com a tia pra ver. Tinha um homem que comia fogo.
     Tuísca fazia projetos: quando o circo chegasse, ele acompanharia o palhaço em seu percurso pela cidade, montado de costas num jumento. Assim acontecia sempre, cada vez que um circo armava seu pavilhão no descampado da banca de peixe. O palhaço a perguntar:
     - Palhaço o que é?
     A meninada a responder:
     - É ladrão de mulher...
     O palhaço marcava-lhe a testa com cal, ele entrava de graça no espetáculo à noite. Quando não ajudava os mata-cachorros na arrumação do picadeiro, fazendo-se indispensável e íntimo. Nessas ocasiões abandonava sua caixa de engraxate.
     - Um circo quis me levar. O diretor me chamou...
     - De mata-cachorro? Tuísca quase se ofendeu:
     - Não. De artista.
     - O que é que tu ia fazer?
     Iluminou-se o rostinho negro:
     - Pra ajudar com os macacos, aparecer com eles. E pra dançar também... Só não fui por causa de mamãe... - a negra Raimunda estava entrevada de reumatismo, incapacitada de exercer sua profissão de lavadeira, os filhos sustentavam a casa: Filó, chofer de marinete, e Tuísca, mestre de várias artes...
     - E tu sabe dançar?
     - Nunca viu? Quer ver?
     Imediatamente pôs-se a dançar, tinha a dança dentro de si, os pés criando passos, o corpo solto, as mãos batendo o ritmo. Gabriela olhava, com ela era igual, não se conteve. Abandonou tabuleiros e panelas, salgados e doces, a mão a suspender a saia. Dançavam agora os dois, o negrinho e a mulata, sob o sol do quintal. Nada mais existia no mundo. Em certo momento Tuísca parou, ficou apenas a bater as mãos sobre um tacho vazio, emborcado. Gabriela volteava, a saia voando, os braços indo e vindo, o corpo a dividir-se e a juntar-se, as ancas a rebolar, a boca a sorrir.
     - Meu Deus, os tabuleiros...
     Arrumaram às pressas, o de doces sobre o dos salgados, tudo na cabeça de Tuísca que saiu assoviando a melodia. Os pés de Gabriela ainda traçaram uns passos, dançar era bom. Um ruído de fervura veio da cozinha, ela precipitou-se.
     Quando sentiu Chico Moleza entrar na casa ao lado já estava pronta, tomou da marmita, enfiou os chinelos, dirigiu-se para a porta. Ia levar a comida de Nacib, ajudar enquanto o empregado não estava. Voltou, porém, colheu uma rosa no canteiro do quintal, enfiou o talo atrás da orelha, sentia as pétalas veludosas a tocar-lhe de leve a face.
     Fora o sapateiro Felipe - boca suja de anarquista a praguejar contra os padres, tão educado quanto um nobre espanhol ao falar com uma dama - quem lhe ensinara aquela moda. A mais formosa das modas, dissera-lhe.
     - Todas as muchachas em Sevilha usam uma flor roja nos cabelos...
     Tantos anos em Ilhéus, batendo sola, e ainda misturava palavras castelhanas ao seu português. Antes aparecia no ar apenas de raro em raro. Trabalhava muito, remendando selas, arreios, fabricando chicotes de montaria, botando sola em sapatos e botas, no tempo livre lia folhetos de capa encarnada, discutia na Papelaria Modelo. Quase só aos domingos vinha ao bar para jogar gamão e dama, adversário temido. Atualmente era todos os dias, antes do almoço, na hora do aperitivo. Quando Gabriela chegava, o espanhol suspendia a cabeça de rebeldes cabelos brancos, ria com os dentes perfeitos, de jovem:
     - Salve la gracia, olé.
     E fazia com os dedos um ruído de castanholas.
     Outros também, fregueses anteriormente acidentais, haviam-se tornado quotidianos, o Vesúvio conhecia uma singular prosperidade. A fama dos salgados e doces de Gabriela circulara, desde os primeiros dias, entre os viciados do aperitivo, trazendo gente dos bares do porto, alarmando Plínio Araçá, o dono do Pinga de Ouro. Nho-Galo, Tonico Bastos, o Capitão, cada um por sua vez, haviam partilhado o almoço de Nacib, saíram dizendo maravilhas da comida. Seus acarajés, as fritadas envoltas em folhas de bananeira, os bolinhos de carne, picantes, eram cantados em prosa e verso - em verso por que o professor Josué a eles dedicara uma quadra, onde rimava frigideira com abrideira, cozinheira com faceira. Mundinho Falcão já a solicitara por empréstimo, um dia, quando ofereceu um jantar em sua residência, por ocasião da acidental passagem por Ilhéus, num Ita, de um amigo seu, senador por Alagoas.
     Vinham para o aperitivo, o pôquer de dados, os acarajés apimentados, os bolinhos salgados de bacalhau a abrir o apetite. O número crescendo, uns trazendo outros, devido às notícias sobre a alta qualidade do tempero de Gabriela. Mas muitos deles demoravam-se agora um pouco mais além da hora habitual, atrasando o almoço. Desde que Gabriela passara a vir ao bar com a marmita de Nacib.
     Exclamações ressoavam à sua entrada: aquele passo de dança, os olhos baixos, o sorriso espalhando-se dos seus lábios para todas as bocas. Entrava, dizendo bom dia, por entre as mesas, ia direta para o balcão, depositava a marmita. Habitualmente, àquela hora o movimento era mínimo, um ou outro retardatário a apressar-se para casa. Mas, pouco a pouco, os fregueses foram prolongando a hora do aperitivo, medindo o tempo pela chegada de Gabriela, bebendo um último trago após sua aparição no bar.
     - Desce um rabo-de-galo, Bico-Fino.
     - Dois vermutes aqui...
     - Saímos para outra? - os dados ressoavam no copo de couro, rolavam sobre a mesa. - Trinca de reis em uma...
     Ela ajudava a servir, para mais depressa o movimento acabar, senão a comida esfriaria na marmita, perderia o gosto. Os chinelos arrastando-se no cimento, os cabelos amarrados com uma fita, o rosto sem pintura, as ancas dança. Ia por entre as mesas, um lhe dizia galanteios, outro a fitava com olhos súplices, o Doutor batia-lhe palmadinhas na mão, chamava-a minha menina. Ela sorria para uns e outros, pareceria uma criança não fossem as ancas soltas. Uma súbita animação percorria o bar, como se a presença de Gabriela o tornasse mais acolhedor e íntimo.
     Do balcão, Nacib a via aparecer na praça, a rosa na orelha, presa nos cabelos. Semicerravam-se os olhos do árabe - a marmita cheia de comida gostosa, àquela hora sentia-se esfomeado, contendo-se para não devorar os pastéis e empadas de camarão, os bolinhos dos tabuleiros. E a entrada de Gabriela significaria mais uma rodada de bebida em quase todas as mesas, aumento de lucro. Ao demais, era um prazer para os olhos vê-la ao meio do dia, rememorar a noite passada, imaginar a próxima.
     Por baixo do balcão a beliscava, passava-lhe a mão sob as saias, tocava-lhe os peitos. Gabriela ria então em surdina, era gostoso.
     O Capitão a reclamava:
     - Venha ver essa jogada, minha aluna...
     De aluna a tratava, um falso ar paterno, desde um dia quando tentara, no bar quase vazio, ensinar-lhe os mistérios do gamão. Ela rira sacudindo a cabeça, além do jogo de burro não conseguia aprender nenhum outro. Mas ele, nas conclusões das partidas prolongadas em jogadas lentas para a ver chegar, reclamava sua presença nos lances decisivos:
     - Venha aqui me dar sorte...
     Por vezes a sorte era para Nhô-Galo, para o sapateiro Felipe ou para o Doutor:
     - Obrigado, minha menina, Deus lhe faça ainda mais bela - o Doutor batia-lhe levemente na mão.
     - Mais bela? Impossível! - protestava o Capitão, abandonando o ar paternal.  
     Nhô-Galo não dizia nada, apenas a olhava. O sapateiro Felipe elogiava-lhe a rosa na orelha:
     - Ah! mis vinte años...
     Reclamava de Josué, por que não fazia ele um soneto para aquela flor, aquela orelha, aqueles olhos verdes? Josué respondendo que um soneto era pouco, faria uma ode, uma balada.     
     Sobressaltavam-se quando o relógio soava as doze e meia, iam ªsaindo, deixando gordas gorjetas que Bico-Fino recolhia com as unhas sujas e ávidas. Iam empurrados pelo relógio, como obrigados, a contragosto. O bar esvaziava-se, Nacib sentava-se a comer. Ela o servia, rodando em torno da mesa, abrindo a garrafa de cerveja, enchendo-lhe o copo. O rosto moreno resplandecia, quando ele, farto, entre dois arrotos - é bom para a saúde, explicava -, elogiava os pratos. Recolhia as marmitas, Chico Moleza aparecia de volta, era a vez de Bico-Fino ir almoçar. Gabriela armava a espreguiçadeira num terreno ao lado do bar, plantado de árvores, dando para a praça. Dizia até logo, seu Nacib, voltava para casa. O árabe acendia o charuto de São Félix, tomava dos jornais da Bahia, atrasados de uma semana, ficava a espiá-la desaparecer na curva da igreja, seu andar de dança, seus quadris marinheiros. Já não levava a flor na orelha, metida nos cabelos. Ele a encontrava na espreguiçadeira, teria caído por acaso, ao curvar-se a moça, ou a retirara ela da orelha e a deixara ali de propósito? Rosa rubra com cheiro de cravo, perfume de Gabriela.


Jorge Amado, Gabriela, cravo e canela, Segunda Parte: Gabriela com flor - ed. 79ª - Rio de Janeiro, Record -1998.)


Eu Queria ter uma Bomba (clipe)

         

EU QUERIA TER UMA BOMBA - CAZUZA

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto, eu penso em suicídio
Mas no fundo eu nem ligo
Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em homicídio
Mas no fundo eu nem ligo
Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante
Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê






Gabriela se esforça para ser aceita como empregada de Nacib

                      

[...]
Viu dormida numa cadeira, os cabelos longos espalhados nos ombros. Depois de lavados e penteados tinham-se transformado em cabeleira solta, negra, Um rasgão na saia mostrava um pedaço de coxa cor de canela, os seios subiam e desciam levemente ao ritmo do sono, o rosto sorridente.
A espiá-la, num espanto sem limites, como tanta boniteza se escondera sob a poeira dos caminhos? Caído o braço roliço, o rosto moreno sorrindo no sono, ali, adormecida na cadeira, parecia um quadro. Quantos anos teria? Corpo de mulher jovem, feições de menina. (Jorge Amado, Gabriela, cravo e canela – 1958)



sexta-feira, 4 de maio de 2012

Martha Medeiros - Dentro de um abraço


Onde é que você gostaria de estar agora, nesse exato momento?

Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estréia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.
Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.
E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?
Meu palpite: dentro de um abraço.
Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.
Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.
O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz humana nenhuma se faz necessária, está tudo dito.
Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beira-mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?
Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo. Mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. (...) recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.


Martha Medeiros, Feliz por nada, 15ª ed. - Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.


Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector por Aracy Balabanian

                 

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 


Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 



O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 



Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 



Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 


Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 


O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 



Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 



Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.



Clarice Lispector



Oscar Wilde loucos e santos.

             

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.


(Oscar Wilde)